Roberto Menescal e a jornalista Bruna Fonte lançam “Essa tal de Bossa Nova”, pela Editora Prumo

Por Tatiana Dias

Para escrever o livro “Essa tal de Bossa Nova”, em parceria com Roberto Menescal, a jornalista e fotógrafa Bruna Fonte mergulhou no universo do movimento made in Brazil que conquistou o mundo, e entrevistou diversas vezes, durante cinco anos, o compositor que foi consagrado por ter sido um dos criadores da bossa nova. Se o primeiro resultado deste trabalho foi um livro com mais enfoque na vida pessoal do artista, o segundo traz as histórias de bastidores da bossa nova e da MPB, gênero que também consagrou Menescal, como produtor, ao lado de grandes nomes da música brasileira. Essa tal de Bossa Nova e outras histórias, lançamento da Editora Prumo, lembra episódios inéditos com Elis Regina, Gal Costa, Caetano Veloso, Fábio Júnior, Tim Maia, Sidney Magal, Alcione, Raul Seixas, entre outros. Além disso, o livro é uma celebração dos 50 anos do histórico show no Carnegie Hall, em Nova York, e do aniversário de Menescal, que completa 75 anos de idade esse mês.

Por mais que se tente não há como evitar, em um livro sobre a bossa nova, que as páginas exalem poesia. Elas estão lá, nas entrelinhas, explicando por que o gênero é ainda tão atual, moderno e admirado nos quatro cantos do mundo. Tanto é que a autora explica: “Para mim, esta é a ‘fórmula’ que fez a bossa nova durar tantos anos: tanto a melodia quanto a letra tocam a alma das pessoas. As músicas falam da beleza, do amor, de sentimentos que são atemporais.”

Na entrevista que segue, Bruna revela o processo de criação da obra, e conta as histórias desconhecidas do público, lembradas durantes suas conversas com Menescal. Justamente aqueles fatos que fazem um contraponto com a poesia, mas que igualmente dão vida e intensidade à atmosfera da época. Menescal narra duas ocasiões em que ele foi interrogado durante a ditadura. Uma ele foi levado ao DOPS e, na outra, ele e o compositor Paulinho Tapajós foram interrogados pela Polícia Federal no aeroporto de Brasília, sob suspeita de estarem tentando sequestrar o avião.

Bruna diz que há também histórias muito interessantes que são pouco – ou quase nada – conhecidas sobre bastidores de gravações, passagens da amizade de Menescal com Paulo Coelho, e o trabalho com Raul Seixas.

O livro Essa tal de Bossa Nova é seu segundo projeto com o Roberto Menescal, um dos criadores da bossa nova. Por que o seu interesse em escrever sobre o gênero musical?

As músicas da Bossa Nova são muito sinceras, muito verdadeiras. Para mim, esta é a “fórmula” que fez a Bossa Nova durar tantos anos: tanto a melodia quanto a letra tocam a alma das pessoas. As músicas falam da beleza, do amor, de sentimentos que são atemporais. E é por isso que, ainda hoje – mais de cinquenta anos após o seu nascimento – a Bossa Nova continua moderna, atual e admirada nos quatro cantos do mundo. Eu gosto da naturalidade e da sinceridade que cerca as histórias da Bossa Nova, por isso minha admiração pelo movimento.

Mas, além das deliciosas histórias de Bossa Nova, Menescal participou e influenciou diversos gêneros dentro da música brasileira. Então, o que mais me chama a atenção – e motivou a escrita destes dois livros com Menescal – é justamente essa diversidade sobre a qual a sua vida musical se desenvolveu.

Como foi o processo de construção do livro? Como foi idealizado o projeto?

Há quase cinco anos venho entrevistando o Menescal, e o primeiro resultado deste trabalho foi o nosso livro anterior, que tinha um foco maior na sua vida pessoal (diferentemente do livro Essa tal de Bossa Nova em que ele conta somente passagens sobre a música brasileira).

Durante esses anos, fiz inúmeras entrevistas com Menescal, e mesmo depois do lançamento do primeiro livro, outras belas histórias continuaram vindo à tona em nossas conversas. Daí surgiu a ideia de trazermos essas histórias para um livro que contasse somente suas passagens dentro da Bossa Nova e MPB, para celebrarmos os seus 75 anos e os 50 anos do show no Carnegie Hall.

Há alguma história no livro que o Menescal tenha revelado apenas para você?

Neste livro há diversas histórias desconhecidas do público, entre as quais eu destaco duas ocasiões em que ele foi interrogado durante a ditadura: uma ele foi levado ao DOPS e na outra, ele e o compositor Paulinho Tapajós foram interrogados pela Polícia Federal no aeroporto de Brasília, sob suspeita de estarem tentando sequestrar o avião.

Além disso, há histórias muito interessantes que são pouco – ou quase nada – conhecidas sobre bastidores de gravações, passagens da amizade dele com Paulo Coelho, o trabalho com Raul Seixas.

Como um escritor capta o essencial da personalidade retratada e de sua história (ou do que queira contar)?

Não há outra forma de captar a personalidade de alguém ou entender uma história se você não entrar na história de corpo e alma. É quase como montar um quebra-cabeça onde música, vida pessoal, história e diversos outros fatores da própria história são peças chaves para visualizar os acontecimentos de uma vida. Você não chega ao todo se não entender cada aspecto da vida daquela pessoa.

Nesses quase cinco anos de pesquisas, já perdi as contas de quantos mil discos ouvi e de quantas dezenas de livros que li para conhecer o contexto em que a Bossa Nova nasceu, e que a MPB se desenvolveu. Tudo para, consequentemente, conseguir chegar o mais próximo possível da realidade vivida por Menescal.

Para não ficar somente nas pesquisas, entrevistei Menescal diversas vezes. Ao longo desses anos, pedi para que ele contasse algumas histórias mais de uma vez, e a cada vez que ele contava, surgiam novos detalhes, novas lembranças.

Roberto Menescal completa esse ano 75 anos de idade, e é uma personalidade do meio musical, sempre muito celebrada por cantores famosos como Ivan Lins, Lenine, Caetano Veloso, entre outros da MPB. O livro é também para contar histórias de bastidores desde o célebre show do Carnegie Hall, em NY, há 50 anos?

Sim. Na verdade o Carnegie Hall foi o divisor de águas para todos aqueles que integravam a turma da Bossa Nova, pois a partir dali eles – que ainda eram muito amadores – foram obrigados a “profissionalizarem” a Bossa Nova. Após o show no Carnegie Hall, os principais compositores da Bossa Nova acabaram ficando nos EUA, então cada um seguiu um rumo diferente. O primeiro de todos a voltar foi o Menescal – porque estava com casamento marcado – e como a turma toda estava fora, ele seguiu um caminho mais voltado para a produção.

Logo no início dos anos 70 ele foi convidado pelo André Midani para trabalhar na PolyGram onde passou 15 anos fazendo história ao lado de grandes nomes da música brasileira. Então no livro há passagens com os mais distintos artistas, entre eles: Gal Costa, Caetano Veloso, Fábio Jr., Tim Maia, Chico Buarque, Sidney Magal, Alcione e Raul Seixas.

Compositor da primeira leva da bossa nova, Menescal compôs, com Ronaldo Bôscoli, uma das músicas-ícone da bossa nova: O barquinho, de 1961. Há outra canção importante no conjunto da obra dele, mas que não se tornou tão conhecida do grande público? Qual é?

Há uma música da parceria Menescal/Bôscoli dos anos 60 e que, assim como “O Barquinho” nasceu durante as pescarias que os dois faziam em Cabo Frio na época. Essa música se chama “A Morte de um Deus de Sal”. Ela foi escrita em homenagem a um barqueiro que os acompanhava durante as pescas, e que morreu afogado numa manhã em que saiu sozinho para pescar. Ela é um bom exemplo da leveza com a qual a Bossa Nova conseguia tratar os mais diversos assuntos da vida.

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